Teologiaepragmatismo

Durante esta semana está sendo realizada a 1ª Semana Teológica Feics. Participei do evento palestrando sobre o tema: Pós-modernidade, pragmatismo e igreja, ocasião em que busquei demonstrar a influência na teologia dessa vertente filosófica capitaneada originalmente por Charles Sanders Peirce, Willian James e Oliver Wendell Holmes Jr.

Logo baixo deixo o material utilizado como base em minha exposição sobre o tema.

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por Joêzer Mendonça

Na dinâmica do mundo moderno há uma pergunta sempre recorrente: como tornar o evangelho de Cristo pertinente para a “sociedade do espetáculo”, para uma juventude bombardeada por um fluxo incessante de imagens e signos atraentes e, muitas vezes, com claros incentivos anticristãos?

Para atender às expectativas modernas, muitos líderes e músicos cristãos inserem-se na corrente do Pragmatismo. Isto é, usam novas estratégias, empregam novos meios para alcançar os velhos fins. Entenda-se “velhos fins” por tentativa honesta de divulgar a mensagem cristã, mas também, em outros casos, por velhas finalidades de enriquecimento através da boa-fé alheia. Apesar disso, segundo Wolgang Stefani,“ninguém pode duvidar da sinceridade daqueles que advogam essa abordagem [o pragmatismo], nem depreciar sua ‘utilidade’ e ‘resultados’ , e deve-se considerar seus resultados significativos (Música Sacra, Cultura e Adoração, p. 13).

Na opinião de Calvin Johannson, há falhas mais sérias na abordagem pragmática, como:

1) a desconsideração de normas e padrões resulta na transferência do controle da qualidade e da legitimidade para o gosto do público;

2) a utilização da música como ferramenta manipuladora em substituição a ação do Espírito Santo.

Considerações quanto à opinião de número 1:

a) Não se pode esquecer que Lutero (no século XVI), Lowell Mason e Ira Sankey (ambos no século XIX) promoveram mudanças significativas na música sacra concedendo espaço justamente ao “gosto” da congregação. Lutero, por exemplo, aproximou a música sacra do canto do homem comum de sua época, o qual não sabia latim e nem saberia fazer os tantos melismas do canto da missa católica.

b) É fácil perceber um discurso marcado pelo preconceito social ao se definir o “gosto do público” como o responsável pela perda de qualidade musical. Johannson afirma que tal “gosto” não pode ser legitimado. Mas quem é o responsável por legitimar a estética e o gosto musical? Os privilegiados pelo acesso à educação musical? As classes modeladas pelo cultivo do saber europeu?

Quanto à opinião de número 2, ressalto a quantidade de palestras e sermões que empregam a música como ferramenta para influenciar escolhas e decisões (qual pianista de igreja não ouviu o pedido para tocar uma suave música de fundo na hora final de um culto?). A afirmativa de Johannson traduz a famosa (e discutível) dicotomia entre razão e emoção, sugerindo uma livre escolha racional vinda exclusivamente pela palavra, em contraste com uma submissão emocional causada pela música.

Esse discurso está presente em muitas palestras bem-intencionadas que acabam sendo descuidadas na sua abordagem dos efeitos psicofisiológicos da música, que tratam o ser humano (em especial, a juventude) como objeto de fácil hipnose musical e moral e apontam mais proibições do que orientam positivamente, além de deixarem todas as respostas para a ciência.

Por outro lado, há diversos grupos musicais conhecidos pelos seus momentos de extremada e planejada comunhão. Em alguns momentos, nota-se claramente o estímulo ao êxtase místico ou fuga dos níveis imediatos da consciência, o que é realizado por meio:

- do estímulo à forte concentração (o fechar de olhos durante a canção),
– da alteração da fala (indo da voz embargada ao falar em línguas desconhecidas),
– da performance física (a expressão facial de contrição e o gestual dramático do corpo),
– da repetição prolongada do refrão das canções e das orações de intercessão com um fundo instrumental).

O Esteticismo é um ponto de vista que considera que os valores estéticos garantem a qualidade e a arte necessária para uma aceitável adoração a Deus (Música Sacra…, p. 11). Para Wolfgang Stefani, porém, a medida do que é esteticamente superior tende a ser determinada subjetivamente. Ademais, é difícil precisar o que é de alta qualidade artística. Essa dificuldade se deve a maior valorização das identidades culturais locais e ao caráter de mudança dos padrões aceitáveis na música cristã.

O Esteticismo pode ser nefasto quando um produtor musical insere um certo arranjo ou um cantor utiliza determinado recurso vocal como artifício exibicionista. Nelson Freire, um dos maiores pianistas da atualidade, disse que “o mais importante é a música e não o que eu faço com ela”. Assim, o cuidado exagerado com a estética da música pode se tornar prejudicial quando a mensagem desaparece diante do marketing vocal e instrumental em torno da música. De outro lado, há aqueles que acreditam que o único estilo aceitável é a música erudita europeia até o século XIX. Essa seria, para eles, a música do céu, ou no mínimo a mais aproximada.

Volto à pergunta inicial: Como dar sentido ao evangelho de Cristo no mundo moderno sem recorrer aos recursos de atração secularizantes?

Alguns cantores se acomodam no Pragmatismo hipervalorizado, em que os fins permitem o vale-tudo musical e litúrgico. Outros se apoiam no Esteticismo deturpado, em que o fim é o próprio meio, ou seja, a música e o músico. Infelizmente, às vezes o primordial é esquecido: o sentido de missão.

É preciso estar atento às táticas apelativas do emocionalismo. É preciso estar vigilante quanto às estratégias modernosas de assimilação da música pop e, assim, evitar exageros quanto à adoção natural de estilos contemporâneos. Mas, sobretudo, é tãonecessário para alguns despojar-se das muletas da autopublicidade artístico-musical quanto é urgente para todos desvencilhar-se da carapaça do criticismo autoritário e vestir o manto da orientação bíblica construtiva.

Joêzer Mendonça, Doutorando em música pela UNESP. Escrevo sobre atualidades e antigüidades relacionadas à música, mídia, religião e cultura.

Fonte: Nota na Pauta

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Como visto, o pragmatismo é um dos paradigmas nesta geração pós-moderna, inserindo-se inclusive no ambiente eclesiástico. Nesse caso, a adoção da teologia pragmática pode ser percebida tanto no discurso, onde o evangelho é enfatizado pelos seus benefícios terrenos, quanto na metodologia de trabalho do próprio ministério, por meio de práticas focadas em números e resultados em detrimento dos verdadeiros princípios bíblicos.

Aparentemente, a visão de benefícios, funcionabilidade e resultados pode não representar qualquer nocividade à fé cristã, porém, a utilização dos ideais pragmáticos na pregação do evangelho representam – sim – grandes perigos ao ministério pastoral, tanto quando usado no discurso, bem como no que se refere à metodologia empregada.
 
A importância da eficiência
 
Não podemos, é claro, desprezar a importância da prática em todas as esferas de atuação do homem. No casamento, na educação e na atuação profissional, por exemplo, existe um série de considerações do ponto de vista funcional que realmente precisam ser levados em conta. O princípio da eficiência, entendido como o emprego dos meios necessários para se atingir determinado fim, é fundamental no desempenho das atividade vitais do ser humano, inclusive no espaço eclesiástico. Entretanto, a praticidade não pode ser o único ou o principal ponto a ser ponderado na realização de qualquer tarefa; e é exatamente aqui que a filosofia pragmática erra, empurrando para a periferia uma série de princípios fundamentais e elege, como único fator relevante, a questão: “Isso funciona?”, sem considerar os aspectos morais, sociais e psicológicos que cercam o ato.

Dito isto, vejamos os perigos do pragmatismo, tanto no que se refere à pregação, bem como em referência à metodologia de trabalho:

 
  • O perigo de considerar o evangelho como produto e não como dádiva
  • Lourenço Stelio Rega, em artigo publicado na Revista Eclésia escreveu que “nestes primeiros anos do terceiro milênio, a fé cristã está entrando pelo mesmo principio básico da lei de consumo – obter as maiores recompensas por meio dos menores custos. E se não for possível conseguir as dádivas, busca-se por discurso compensadores que possam substituí-la”. Nessas palavras é possível perceber um dos perigos contidos no discurso dprque transforma o evangelho em uma espécie de produto com vários benefícios àqueles que aceitarem a Cristo como Salvador. Esse evangelho de benefícios leva muitos a uma peregrinação de igreja em igreja, em busca daquela que lhe ofereça mais vantagens espirituais. A nocividade em transformar o evangelho em produto é que isso gera uma falsa expectativa naqueles que foram para as igrejas em virtude das “propagandas religiosas”. Prometeram-lhes felicidade, milagres e bênçãos terrenas. Acontece, então, que após tempos e tempos de falsas promessas e benefícios não efetivados, pessoas há que desanimam da fé, da igreja e até mesmo de Deus; atribuindo a Ele o fracasso de suas vidas por não terem recebido a prosperidade que esperavam e que haviam prometido. O resultado são vidas machucadas, feridas, apostatas da fé que criam escudos protetores. É o medo de serem enganadas novamente, de que tomem mais uma vez seu dinheiro em troca de promessas com as quais Deus nunca se comprometeu.

    Ser cristão, levando em consideração somente os benefícios dessa vida não pode e nem deve ser o nosso principal alvo. Segundo a Bíblia, “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”.
     
    [continua]

     

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    INTRODUÇÃO

    No tempo presente o pragmatismo é de longe um dos comportamentos mais em voga no ambiente social. Nesse contexto, a idéia de que os resultados, a praticidade, a utilidade e a funcionabilidade são os melhores indicadores da verdade, e, consequentemente, da melhor maneira de se viver, estão a nortear o cotidiano das pessoas.

    Para exemplificar, em Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C. S. Lewis, o diabo instrutor Fitafuso aconselha seu sobrinho e aprendiz, Vermebile, sobre como afastar uma pessoa da verdade do evangelho. Na primeira epístola, Fitafuso desenvolve a idéia de que os humanos são mais propensos a aceitar pensamentos que tenham aplicação prática em suas vidas, ao invés de avaliar a validade das mesmas. Ele escreve: “Parta do princípio que sua vítima já se acostumou desde criança a ter uma dúzia de filosofias diferentes dançando em sua cabeça. Ele não usa o critério de “verdadeiro” ou “falso” para conferir cada doutrina que lhe apareça (seja do Inimigo ou nossa). Ao invés disso, ele verifica se a doutrina é “Acadêmica” ou “Prática”, “Antiquada” ou “Atual”, “Aceitável” ou “Cruel”. O jargão e a expressão feita (e não o argumento lógico) são seus melhores aliados para mantê-lo longe da Igreja. Não perca tempo tentando levá-lo a concluir que o Materialismo seja verdadeiro (sabemos que não é). Faça-o pensar que ele é Forte, Violento ou Corajoso – ou ainda, que é a Filosofia do Futuro! Este é o tipo de coisas que lhe despertarão a atenção”.

    Francis Schaeffer, também, em 1976, quando escreveu How Should We Then Live (Como Viveremos?), chegou a afirmar que o pragmatismo era o pensamento dominante na época. Segundo ele, “tanto nos assuntos internacionais quanto no que diz respeito ao lar, o critério mais amplamente aceito é a conveniência – manter-se a paz pessoal e a prosperidade do momento a qualquer preço”. Identicamente, o inglês John Stott afirma que “no mundo moderno multiplicaram-se os pragmáticos, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?”, mas sim: “Será que funciona?”. (2001, p. 07).

    Assim, é possível perceber as garras dessa doutrina sendo cravadas nas políticas públicas, na economia, na educação e até mesmo nas discussões judiciais. O ideário pragmático pode ser vislumbrado quando se coloca em debate assuntos como o aborto, drogas, pesquisas de células tronco, entre outros. Geralmente, quando esses assuntos são discutidos, a análise gira em torno dos benefícios imediatos que tais práticas podem trazer para o ser humano, sem se levar em conta valores morais e princípios éticos.

    [Da série: Evangelho Pragmático]