O livro didático dos insultos
por Joêzer Mendonça
A escola está desesperada. Como o aluno parece mais interessado em atualizar suas fotos no Orkut, os pedagogos acreditam que a escola precisa falar o idioma natural infantojuvenil para fazer o estudante de muito MSN e poucos engenhos se interessar pelo idioma natural acadêmico. A novidade é simples: se “todos” falam palavrão, então que os livros didáticos também falem palavrões.
Apesar do que sugerem expressões fortes como “os catetos da hipotenusa” ou “ácido desoxirribonucleico” ou, tirem as crianças do blog, “oração coordenada sindética aditiva”, os palavrões nesses livros são mais prosaicos.
Deus não dará coroa pela ignorância

Valmir.Nascimento
Pode parecer brincadeira mas em pleno século XXI ainda existe uma turma dentro das igrejas evangélicas que se manifestam em contraridade ao estudo, à leitura e à busca do conhecimento.
É muito comum ouvirmos pastores e/ou pregadores reverberando contra aqueles que se dedicam ao estudo secular, ou que procuram ampliar seus conhecimentos teológicos.
Nas igrejas pentecostais, especialmente, o cristão intelectual é tido como rebelde, frio, calculista, modernista, liberal e inveterado insurgente. James Sire (1) chama isso de versão popular do intelectual.
Diz-se, de modo recorrente, que a igreja não precisa de mais conhecimento ou de doutores, já que ela foi criada e levada adiante por pessoas que nunca estudaram, e que, portanto, a intelectualidade é desnecessária e sobretudo perigosa, já que a “letra mata e o Espírito vivifica” (falei sobre esse tema aqui).
Hedonismo mental
O anti-intectualismo, percebe-se, ainda é uma realidade no nosso meio. Como escreveu Os Guinness:
“O anti-intelectualismo é uma disposição em não levar em conta a importância da verdade e a vida da mente. Vivendo numa cultura sensual e numa democracia emotiva, os americanos evangélicos da última geração têm simultaneamente revigorado seus corpos e embotado suas mentes. O resultado? Muitos sofrem de uma forma moderna do que os antigos estóicos chamavam de “hedonismo mental” – possuem corpos saudáveis e mentes obtusas”. (2)
Sem devaneios e meias voltas, portanto, constatamos a existência de uma batalha ridícula dentro das igrejas locais: ignorantes versus intelectuais.
De um lado aqueles que não aceitam a busca do conhecimento, e do outro, aqueles que se empenham em buscá-lo. Nessa peleja, os ignorantes vão levando a melhor, é claro, já que despudoradamente se valem da opressão e de falsas técnicas de interpretação bíblica para defender suas idéias.
Ocorre que, infelizmente, muita desse pendenga inóqua é criada pelo receio que os líderes possuem de perderem espaço àqueles que possuem mais conhecimento que eles (ou que pelo menos estudam mais que eles). Essa é uma triste realidade. O resultado é a criação da imagem de que todo cristão intelectual é arrogante por natureza, que exclui Deus da sua vida cristã.
É preciso dizer a esse pessoal que a arrogância não é afeta somente aos estudiosos, mas também àqueles que não buscam conhecimento. E o que existe de cristão que se arroga da sua própria ignorância não está escrito, como se no céu fossem receber de Deus uma coroa pela burrice exercida na terra: “Toma filho, sua coroa, pela ignorância que demonstraste”. É risível!
Evitando equívocos
Não quero com isso dizer que o cristão intelectual é superior ou inferir àquele que não aprecia o estudo ou a leitura. Não, não e não!
Quero simplesmente ressaltar que a vida intelectual não é sinônimo de arrogância ou de desvio doutrinário, e que tanto estudioso quanto não estudioso estão sujeitos aos mesmos erros. É claro que a vida cristã não pode pautar-se jamais pelo grau de conhecimento que possuimos, mas sim pela dependência plena à Cristo. Como escreveu Paulo: “A minha linguagem e a minha pregação não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de poder; para que a vossa fé não se apoiasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (I Co. 2:5,6). O que a Bíblia censura não é o conhecimento em si mesmo, mas o orgulho dele decorrente, como também se lê em I Co. 8:1,2.
Portanto, prezado leitor. Se você possui interesse em dedicar-se à leitura, ao estudo e à vida intelectual. Não se preocupe. Faça isso sem receios. Por mais que a tropa de choque anti-intelectual tente dissuali-lo.
Notas
1 – James Sire, Hábitos da Mente – a vida intelectual como um chamado cristão. São Paulo, SP. Editora Hagnos. 2005. p. 19.
2 – Os Guinness, citado por James Sire, obra citada, p. 23.
Igreja que ama, Educa!

Por: Valmir Nascimento Milomem
John Stott escreveu um livro que deixariam muitos cristãos perplexos e estupefatos. Em “Crer é também pensar” Stott analisa a importância da mente na vida cristã e explica o motivo pelo qual o seu uso é tão importante para os cristãos, e como se aplica em aspectos práticos de suas vidas. Faz ainda um vigoroso apelo aos cristãos para mostrarem uma devoção inflamada pela verdade.
Afirmo que muitos cristãos ficariam perplexos e estupefatos, pois no inicio de seu trabalho Stott afirma que o “espírito de anti-intelectualismo é corrente em nosso dia, o que segundo ele, no mundo moderno multiplicaram-se os pragmatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?”, mas sim: “Será que funciona?”.
Com efeito, este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja cristã. Fazendo-a descrer da importância tanto do ensino teológico sistematizado quanto da educação secular, aduzindo, portanto, que presenciamos a “miséria e a ameaça do cristianismo de mente vazia”.
Na visão de Stott, o cristianismo de mente vazia é o resultado de igrejas que direcionaram suas ações somente para três áreas distintas: o ritual, em que uma cerimônia religiosa é um fim em si mesma; ação social, cuja preocupação unicamente são assuntos ligados a fome e violência; ou, somente na experiência, em que se faz da experiência metafísica a única razão de ser cristão.
Esse cenário é propício para o surgimento de cristãos inconscientes; os quais não compreendendo as verdades bíblicas e o cerne do pensamento cristão, são desprovidos do caráter e da mente de Cristo. Cristãos desvirtuados e indiferentes para com a obra de Cristo, e, por fim, crentes resignados e “igrejistas”, cujo horizonte vai até onde termina o átrio da sua congregação.
Gostaria sinceramente de contestar o ponto de vista de John Stott. Gostaria de escrever nesse espaço que ele está equivocado. Que as coisas não são bem da forma como ele disse.
Que o cristianismo não está de “mente vazia”. Que não existe “espírito de anti-intelectualismo”. Que cristãos inconscientes, indiferentes e resignados são raros. E por, fim, gostaria de provar tudo isso, demonstrando que a Igreja investe tanto na educação bíblica quanto na secular.
Mas não tem como. Não quero ser hipócrita. Não tenho argumentos para desbancar as idéias de Stott. Não tenho provas para refutá-lo, muito menos testemunhas. Por isso, sou obrigado a concordar com ele. Devo aceitar suas denúncias.
Para comprovar que ele tem razão, basta observar que anualmente a igreja realiza quase uma dezena de festividades para os mais variados departamentos/setores. Nesse sentido, têm-se festas de jovens, adolescentes, crianças, circulo de oração, novos convertidos, encontros de casais, e aniversários diversos, nos quais são despendidas altas quantias de dinheiro para a oferta de preletores, cantores e demais despesas necessárias para o custeio de tais eventos. Em contrapartida, pouquíssimas vezes são realizados eventos relativo à educação cristã. Encontros que tenham como foco discutir assuntos atinentes ao ensino. Congressos que busquem a capacitação de professores e o aperfeiçoamento daqueles que acabaram de adentrar ao ministério do ensino. Simpósios que abordem técnicas de ensino e métodos para a excelência da ministração. Em último caso, e, se sobrar tempo, o máximo que se faz é improvisar um reuniãozinha extraordinária após a escola dominical num domingo qualquer, cujos participantes não vêm a hora do amém!
Ainda, tem-se o caso do investimento em construções de templos suntuosos, instalação de condicionadores de ar, cortinas, computadores, assentos, bem como outras aquisições; ao passo que pouco se investe em construção de salas de aula, aquisição de quadros, pincéis, materiais didáticos e outros correspondentes, a fim de melhorar o ensino sistematizado da Bíblia Sagrada. Eis que nesse caso, o investimento parece não ser conveniente.
Verifica-se, portanto, que poucos líderes já se conscientizaram acerca da importância do ensino na igreja. Poucos compreenderam que o investimento em educação é o melhor empreendimento que podem fazer para o bem das ovelhas. Por isso, o sistema de ensino religioso evangélico permanece na sua grande maioria com um estilo arcaico, medíocre e desorganizado, com poucas inovações com vistas a organizar o setor educacional.
O cristianismo de mente vazia é resultado exatamente dessa falta de investimentos em educação cristã. Na inexistência de ações voltadas para a completa formação dos seguidores de Cristo. Na exata medida em que a Escola Dominical é jogada para escanteio e considerada somente como mais uma reunião extraordinária. Na mesma proporção em que o ensino sistematizado e permanente da Palavra de Deus e o incentivo para o estudo secular são deixados de lado.
A importância da educação cristã
Leve-se em consideração que a Igreja enquanto agência divina possui três funções básicas: Evangelização, adoração e ensino. Entre esses papeis não existe aquele que possua maior ou menor grau de importância, todos são preponderantes. Porém, é exatamente o ensino o responsável por dar qualidade aos demais.
Assim, evangelização sem ensino é o mesmo que jogar a semente sem, no entanto, regar com água. Adoração sem ensino é pura cantoria sem propósito. Em suma, cristianismo sem ensino é ritualismo. A educação cristã, portanto, é relevante para a formação do caráter cristão e para a afixação da consciência espiritual. A educação cristã promove o conhecimento de Deus e seu amor presente em Cristo. Ela dá condições de preparo e desenvolvimento a seus membros para desempenharem o seu serviço do Reino.
Evidentemente, o investimento no setor educacional da igreja é investimento na formação do caráter cristão; é o empenho no sentido de formar discípulos conscientes acerca do seu papel no Reino de Deus, bem como da sua função no meio social.
Ademais, o ensino, quando bem ministrado, capacita o cristão a pensar. E o pensamento é uma atitude fundamental para a sobrevivência de todo seguidor de Cristo.
Para corroborar, leve-se em consideração que o aprendizado é baseado em três ações principais: conhecimento, pensamento e atitude. O conhecimento é o conjunto de informações que possuímos. Pensamento é a forma de analisar e refletir acerca dessas informações. Atitude, por conseguinte, é quando utilizamos tais informações para determinado fim. Conhecimento, pensamento e atitude são como peças de um quebra-cabeça. Incompletas sozinhas. Perfeitas unidas.
O conhecimento bíblico só é importante se for praticado. A prática só é correta se for refletida. E o pensamento, por sua vez, só será válido se for baseado num conhecimento verdadeiro, direcionado a uma atitude louvável. Aquele que possui somente conhecimento é uma enciclopédia. Aquele que somente pensa é racionalista. Aquele que somente age é um fanático. Mas, aquele que conhece, pensa e age é inteligente. No caso do cristão, será um cristão consciente. O pensamento é, então, o elo entre o conhecimento e a atitude. É a ponte que promove a ligação entre dados disponíveis e ações possíveis. Em outras palavras, é a razão de ser do conhecimento bíblico, na medida em que transforma dados em ações concretas. Converte folhas de papel em comportamentos.
Assim, quando os cristãos param de pensar, estamos diante de um sério problema. Sabe qual é? Outras pessoas pensarão por nós. Isso é natural e automático. E uma coisa é certa, o mundo está pensando. Ele não pára de maquinar. Suas reflexões estão a todo vapor. Suas ideologias estão em franco crescimento. Seus pontos de vistas antibíblicos ganham mais adeptos dia após dia. E nós, cristãos evangélicos, o que estamos fazendo? Preparando-nos para a próxima festividade? Estamos pensando o evangelho? Investindo em estudos? Ou comprando computadores?
Baseado nisso…
Se quisermos que os cristãos sejam conscientes e comprometidos com a principal finalidade do
Reino de Deus, é melhor investirmos em educação. Se quisermos que os membros da igreja tenham pleno envolvimento acerca do seu papel em meio à sociedade secular, é melhor investirmos em educação.
Se quisermos que a igreja saia dos casulos templários e cause o impacto do evangelho na sociedade, é melhor investirmos em educação. Se quisermos que a alienação espiritual de muitos crentes dê lugar à compreensão da salvação da alma, é melhor investirmos em educação. Se quisermos sermos vistos como sal da terra e luz do mundo, é melhor investirmos em educação.
Por outro lado…
Se quisermos que os cristãos sejam alienados, inconscientes, insossos, apagados, descomprometidos, sem propósitos, igrejistas, resignados, indiferentes e desvirtuados, é simples: Não invista em educação. Esqueça o ensino. Despreze a Escola Bíblica Dominical! É por essas e por outras que, parafraseando Içami Tiba, digo: Igreja que ama, educa!
