OS CEGOS E O ELEFANTE

Por Valmir Nascimento Milomem

Era inicio de noite. Eu havia acabado de sair do trabalho. Estava em direção à minha residência meditando sobre o tema que havia de escrever. Foi quando, inesperadamente, surge logo à frente do meu veículo um enorme vulto (gigante, pra dizer a verdade). Não! Não era um extraterrestre. Era um elefante. Uma elefanta, para ser mais exato. Percebi isso ao ouvir um rapazinho que gritava:

 - Jane, Jane. Volta já aqui!

Ela, sem dar ouvidos ao minúsculo ser que com ela gritava, continuou seu vagaroso caminhar despertando a atenção de todos os que por ali transitavam.

Como não é todo dia que se vê um elefante passeando pela rua, lembrei, então, da parábola de John Godfrey Saxe, “Os cegos e o elefante”, na qual seis cegos, sem saber do que se tratava, começam a apalpar um elefante. Um cego tocou o lado do corpo do elefante e disse que era um muro. Outro cego tocou a orelha do elefante e disse que era um grande abano. Outro segurou uma das pernas do elefante e pensou que fosse o tronco de uma árvore. Outro, ainda, segurou a tromba e disse que era uma cobra. Outro cego tocou uma das presas de marfim e pensou que se tratava de uma lança. Finalmente, outro cego tomou a cauda do elefante nas mãos e julgou estar segurando uma corda.

Geralmente essa estória é utilizada para – tentar – evidenciar que cada pessoa pode ver a realidade de um forma diferente. Como no caso dos cegos que exploraram cada qual uma parte do elefante – a barriga, o marfim, a tromba, a perna, a orelha e o rabo; e, respectivamente traduziram como sendo uma parede, uma lança, uma cobra, um tronco de árvore, um abano e um corda. Assim, também, pode-se dizer acerca de Deus e da religião. Cada pessoa vê Deus de uma forma.

Há quem entenda, portanto, que todos somos cegos para a realidade que pode existir além do nosso mundo físico, devendo interpretar essa realidade à nossa própria maneira. Do mesmo modo que a parábola ilustra; as diferentes religiões têm diferentes interpretações da realidade, mas a realidade é a mesma. Ela parece ser uma coisa para o budista e outra para o muçulmano. O cristão a vê de um modo, e o hindu de outro, e assim por diante. A realidade é uma, mas as maneiras de enxergá-las são muitas. Há muitos caminhos que o podem levar ao topo da montanha.

Esse tipo de pensamento não é algo isolado. Pelo contrário, é o cerne da assim chamada – Cultura Pluralista e Relativista – que tem se entronizado ao redor do globo. Segundo Norman Geisler “… o pluralismo religioso consiste num sistema de crenças que admite a coexistência de uma diversidade de pensamentos, valores e convicções considerados, principalmente, produtos da família do indivíduo, de sua cultura e sociedade”.

De acordo com o relativismo, todas as opiniões descrevem a mesma realidade de diferentes perspectivas, pois os diferentes pontos de vista do mesmo objeto podem produzir diferentes resultado. Assim, o relativista diz: “Toda verdade é relativa”. O pluralista: “Todas as visões são verdadeiras”. O relativista argumenta: “Não existe verdade absoluta”. O pluralista: “Tanto a minha quando a sua verdade são corretas, por mais que sejam diferentes”.

Inicialmente essa argumentação pode até apresentar-se perfeita. O caso dos cegos e do elefante até parece conter uma certa lógica. Tanto que quando eu dou esse exemplo, alguns dizem: “- Não é que é verdade mesmo!”. Porém, deve-se advertir, o pluralismo e o relativismo são das invenções mais absurdas da mente humana. Uma verdadeira afronta contra a inteligência.

Voltemos, portanto, ao caso dos cegos e do elefante. Como é possível que o cego que disse tratar-se de um parede estar tão certo quanto aquele que disse tratar-se de uma lança? Como pode o cego que achou que aquilo que acabara de apalpar fosse um tronco de árvore estar falando a verdade tanto quando o cego que disse ser um abano? Eu sinceramente não sei responder, imagino que aqueles que defendem essa idéia também não saibam. E mais, nenhum dos cegos disse corretamente o que eles haviam tocado. Todos estavam equivocados. Os seis erraram. Somente diria a verdade aquele que dissesse: “É um elefante!”.

Feitas essas considerações, é perfeitamente possível dizer que o relativismo é um completo absurdo. No plano espiritual é ilógico dizer que as religiões estão todas corretas ao mesmo tempo, quando os seus pontos de vista sobre Deus são completamente conflitantes. Se Carlos diz que Deus é “A” e Ricardo, pelo contrário, diz que Deus é “B”. Sendo as afirmações divergentes uma da outra, ou Carlos está certo ou Ricardo está certo. Ou, ainda, ambos estão errados. Mas, nunca, nunca mesmo, ambos estarão corretos ao mesmo tempo.

Desta forma, é inconcebível dizer que a verdade não é absoluta, mas relativa. O que é verdadeiro para mim, deve, logicamente, ser verdadeiro para você também. O que é verdadeiro para o Carlos deve também ser verdadeiro para o Ricardo.

Por outro lado, a questão da relatividade e da pluralidade pode perfeitamente ser aplicado ao gosto das pessoas. Há quem goste de comer jiló, por exemplo; outros, por outro lado, detestam. No entanto, Deus e religião nunca fizeram parte dessa área. Há, de fato, quem coloque Deus/religião/espiritualidade numa área da sua vida que se chama: HOBBYES. Assim, para essas pessoas, tanto faz ser evangélico, hinduísta ou taoísta. Afinal, é uma questão de gosto, pensam eles. Por isso, optam por aquilo as façam se sentirem melhor. Escolhem a religião levando em consideração aquilo que as deixam de “bem com a vida”. Escolhem qual regra de fé a seguir do mesmo modo que optam pela roupa de final de semana. São os chamados – religiosamente corretos -.
Deus, portanto, está numa área chamada VERDADE ABSOLUTA.

É por isso que os cristão são chamados de exclusivistas. Afinal, a verdade, como comprovado acima, é exclusivista. Não aceita parcerias que lhe contradizem. Não aceita declarações que lhe são contrárias. Isso é duro, mas é a verdade. Como disse Erwin Lutzer : “A verdade existe objetivamente fora de nós mesmos. Não a criamos; só a descobrimos”. E Jesus, por seu turno, deu-nos a dica de como encontrá-la: “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim” Jo. 14:06.


Soli Deo Gloriae!

9 thoughts on “OS CEGOS E O ELEFANTE

  1. Leandro Teixeira

    Paz irmão Valmir!

    Muito importante as suas colocações neste post. Vivemos numa época, ao contrario do que se pensa, anti-intelectual, haja vista esta tendência quase que obrigatória a relativizarmos tudo. O relativismo, o pluralismo e o agnosticismo andam de braços dados. Como Norman Geisler cita no seu livro Fundamentos Inabaláveis, ou estas três idéias se mantém, ou as três caem juntas. No livro, vimos que elas não se sustentam logicamente.

    Que mais e mais pessoas venham a ter acesso a este tipo de informação disponibilizada no seu blog!

    Deus te abençoe!

    Leandro Teixeira
    http://liberdadeepensar.blogspot.com

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  2. Elizeu Rodrigues dos Santos

    “Temos por pai a Abraão”, porém Jesus lhes diz que o pai deles é o diabo e que faziam a vontade dele. Jesus chegou nesta confirmação após enisinar ao povo sobre a missão que o Pai lhe deu. Jesus ensinava que se eles permanecessem naquilo que Ele dizia, seriam seus díscipulos, conheceriam a verdade (e a verdade é o próprio Cristo), e a verdade os libertaria. Quando o Mestre fala isso, a turba se enfurece e diz que são livres, nunca serviram a ninguém, e que são filhos de Abraaõ. Jesus diz que eles são servos do pecado, e que só serão realmente livres, quando o Filho (=verdade, que Jesus fala antes) os libertar. Antes disso, no cap 5 de Jo, Jesus mostra que eles examinavam as escrituras, e confiavam na salvação de suas vidas, por tudo aquilo que lá está relatado, pois são povo escolhido por Deus. “Verdadeiros exclusivistas”. Jesus então diz: “Eu não vos acuso. Mas existe alguém em quem vocês confiam e esperam, que vos acusa todo dia, e seu nome é Moisés. Se vocês cressem nele, creríeis em mim, pois ele escreveu de mim”.
    Conhecer a palavra escrita nem se compara em conhecer a Verdade Deus em pessoa. Os exegetas judeus eram servos de suas interpretações, hermenêuticas, e confiavam demasiamente nisso. Então tomemos cuidado, nós que sempre estamos com a pena na mão, pois isto é uma verdadeira faca de dois gumes, que corta você, e conseqüentemente me corta também (1 Jo 3.15).
    Irmão Valmir, qdo fizer o link do meu blog aqui no seu, renomeie ele como Blog do Elizeu Rodrigues, por favor.

    Fiquem no amor de Deus

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  3. Fernando Falheiros

    A Paz!
    Um ponto interessante da parábola que passei a conhecer somente agora é que os cegos apalpam apenas uma parte do elefante… Isso também pode significa que quando não conhecemos a verdade, tiramos definiçoes precipitadas e erradas. Acho que justamente ai está toda a moral do ‘relativismo': “Conhecereis a verdade e ela vos libertará!” Quando não conhecemos a verdade, passamos a procurá-la e defini-la com a limitação de nossa cegueira ou no pequeno espaço que apalpamos.

    Que Deus continue te abençoando…

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  4. esdras costa bentho

    Kharis kai eirene.
    Prezado Valmir, estávamos desde 01 do mês em curso na 12 Conferência da Escola Dominical, realizada em Cacoal, Rondônia. Ministramos o tema Interdisciplinaridade e um outro sobre Avaliação na Escola Dominical. Minha satisfação foi observar que o Pr. Wagner Gaby, utilizou, com as devidas referências bibliográficas, parte de um de seus textos exposto no blog. Achei muito interessante, não acha?
    Quanto ao relativismo e pluralismo também tenho escrito sobre o assunto em nosso blog e concordo plenamente com a posição adotada pelo prezado companheiro.
    Precisamos incentivar outros blogueiros evangélicos a discutir o tema.
    Um abraço

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  5. Editor do Blog

    Pr. Esdras,

    Se não fosse uma viagem que tive que empreender para Campo Grande, eu estaria em Cacoal para ouvi-los, estava tdo planejado, porém, tive que ir para MS. Gostaria imensamente de ter o privilégio de comermos uma pizza e batermos bons papos como em Cbá.

    Sobre o Pr. Wagner Gaby ter utilizado parte de meu texto fico e deveras feliz com tal acontecimento. É uma grande honra ter um artigo citada por um homem como ele, servo de Deus, inteligente e exímio educador.

    De fato, como sabe, sou assíduo leitor do seu blog, e sei que aborda com frequencia o assunto do relativismo, com muito mais profundida que eu obviamente, mas o importante é que cada um fale sobre o assunto, cada qual ao seu estilo.

    Grade abraço!

    Valmir

    Ps. Qual o texto que o Pr. Wagner Gaby usou?

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  6. Editor do Blog

    Leandro,

    O relativismo em si é um completo absurdo, e o Norman Geisler, com a maestria que possui, assentou o tema muito bem em seu livro “Fundamentos Inabaláveis”.

    Obrigado pela visita,

    Valmir

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  7. Editor do Blog

    Fernando,

    Assim como toda ilustração, a parabola proposta tem seus erro tb. Mas acredito que ela acerta quando demonstra que cada pessoa vê a realidade ao seu modo, entanto, o fato de simplesmente ver o elefante como objetos individualizados nào mudou a natureza do mesmo, ou seja, um animal. Assim, apesar de não podermos conhecer toda a realidade que nos rodeia, podemos contundo, ter a certeza de que uma coisa não pode ser duas ao mesmo tempo, de forma que a verdade precisa ser única.
    Nesse sentido, precisamo acreditar em alguém, fora do mundo que participamos para nos reveler toda a verdade, e essa pessoa chama:se Jesus.

    Valmir

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  8. Ciro António

    Gostei bastante do seu texto porque me deixou à refletir coisas maiores. Eu procurava o texto original dos cegos e o Elefante e acabei caindo aqui. De início uma verdade: John Godfrey Saxe se inspirou, na realidade, numa parábola indiana secular que discutia o pluralismo religioso. Mas não pude deixar de notar que, se apoderando dela, você transformou a instigante e mística metáfora numa brutal racionalidade cristã da idade média, estão presentes nela todos os caracteres necessários: a lógica da maldade e da incompreensão, as babelagens sobre uma verdade una e por fim, uma dialética avessa à moral da própria religiosidade. Nesta construção tirana da verdade, a única forma argumentada de se ver o elefante como um ser completo, ou seja, estar correto sobre a verdade divina, é ser cristão – ou melhor, cristão adjunto algo ainda mais específico nas ramificações rigorosas (evangélico, católico romano ou qualquer outra bandeira carregada por você). No entanto a parábola original é o que chamamos de complexo circular; ou paradoxo, quando se conclui partidário do sempre correto, você volta imediatamente ao problema cerne: vejo o elefante ou apenas um pedaço dele? É uma armadilha filosófica sem fim, não há lógica ao afirmar que o cristão sempre visualiza o elefante por completo porque além do elefante existirão outros mistérios inexplicáveis, o que torna sua nova ciência um gentil tatear, talvez mais solícito(mas ainda limitado), sob outro animal qualquer e inominado.

    Entender a complexidade de toda a existência, ou seja, obter a consciência deste elefante/metáfora como um todo, é colocar-se imediatamente no lugar de Deus, que é o único capaz de compreender a si mesmo e todas as suas manifestações de glória. É de uma arrogância diabólica dizer-se douto das razões divinas, lúcifer afogou-se no lodo-enxofre por muito menos.

    Então você ensaia com um raio de pensamento: – Mas Jesus afirmou ser a verdade imaculada e a proeminência da vida, porquanto faço de minha crença nele um silogismo de verdade!
    É ai que você se engana. A crença em Cristo como verdade universal transcende a realidade da carne e do sangue. Não é a imagem humana que é digna de adoração, não é desta personagem pré-fabricada. É através da história, dos ensinamentos e do suplício de Cristo que devemos retirar nossas conclusões de verdade. Beijou os pés de uma errante, gesticulou o perdão e o amor como estandartes da psique humana. Discursou sobre o bom samaritano, e disse, sem o pudor digno dos sacerdotes e enganadores, que não era a crença do samaritano – pois estes eram mal vistos nos grupos judaicos por não praticarem a mesma fé – que lhe redimia aos olhos de Deus, mas sim suas ações de bondade humana. A verdadeira prática divina não se centra na conjectura de símbolos, classificações ou mordaças: mas crer nele, naquele que é filho de Deus, era crer e praticar a paz dos homens, o amor e principalmente o perdão.

    E se o perdão só é passível àquele que erra, e o amor só se manifesta quanto perdoamos as maledicências dos outros, crer em Jesus é não só perdoar, mas amar o cego que – ao invés de pança – encontra focinho. O raciocínio cristão original não pensaria em determiná-lo correto ou errado em suas ações, mas aceito e amado independente de sua razão espiritual. Mais além: que estariam os outros corretos em sua ciência desde que manifestassem as mesmas diretrizes de Cristo. Desta forma a parábola hindu não contraria a razão de Cristo, porque também ela é uma razão repleta de cristandade e de perdão àquele que erra – porque todos erram, assim foi dito, mas apenas alguns possuem a audácia de atirar a primeira pedra. Atiras tu?

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  9. Anibal Okamoto

    Agora eu digo pra voce, parte do Cristianismo esta certa, como parte do Budismo, como parte do Zoroastrismo, como parte do Hinduismo. E sabe qual parte é? Aquela em que todos falam a mesma coisa! O que muda bastante, são as formas com que as coisas são ditas. As épocas e contextos diferem, e isso é inevitável.
    E concordo com a assertiva de Jesus, “Eu sou o caminho, a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Mas quando ele diz isso, ele se refere a sua natureza Cristica. Que em essencia, toda religião pretende alcançar. Voce acha mesmo que se Buda se encontrasse com Jesus eles iam se atacar? Que eles iam lutar pra ter mais discipulos? É claro que não, eles seriam mais amigos que muitos de nós conseguimos ser um com o outro.

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