A política precisa se abrir à religião, diz professor de Harvard
Um dos filósofos mais incensados da atualidade é o norte-americano Michael Sandel. O seu livro “Justiça: O que é fazer a coisa certa” [Civilização Brasileira] coloca em debate questões centrais da ética, percorrendo, com leveza, as ideias de Aristóteles, Jeremy Bentham, Kant, John Stuart Mill e outros. Seu curso Justice é um dos mais populares e influentes de Harvard. Quase mil alunos aglomeram-se no anfiteatro do campus da universidade para ouvir Sandel relacionar grandes questões da filosofia política aos mais prosaicos assuntos do cotidiano.
Sem dúvida alguma em 2012 Justiça foi o melhor livro secular que li. O estilo de Sandel é cativante e ao mesmo tempo didático. Ele consegue discutir temas da filosofia moral com extrema facilidade e leveza. Quais são as nossas obrigações uns com os outros em uma sociedade democrática? O governo deveria taxar os ricos para ajudar os pobres? O mercado livre é justo? Estes são alguns temas abordados por Sandel.
É claro que não concordo com todos os seus pontos de vista ali colocados, porém, reconheço que Sandel tem uma linha de raciocínio interessante, capaz de despertar a atenção das pessoas para os temas da filosofia moral e politica.
Em outra oportunidade abordarei mais detidamente sobre o livro. Por ora, gostaria de chamar a atenção para a entrevista concedida por Sandel à revista Época, edição de 16 de julho de 2012.
Vejam o que ele respondeu à seguinte pergunta: “No Brasil, há grupos crescentes de cidadãos que definem suas atitudes, além de suas escolhas eleitorais, de acordo com a orientação religiosa. Isso traz algum perigo para a vida pública?”.
Sandel – É uma questão complicada. A relação entre política e religião tem uma história longa e difícil. Os filósofos políticos debatem há muito tempo qual seria a relação adequada entre as duas, com duas preocupações principais. Uma é que as convicções religiosas sejam intolerantes, dogmáticas, estreitas, e tragam isso para a política. A segunda preocupação é que, como as sociedades modernas abrigam muitas diferenças religiosas, trazer essas divergências para a política poderia gerar discordâncias irremediáveis dentro do debate público. Não acredito que possamos ou devamos insistir numa separação completa entre política e convicções religiosas. Por dois motivos. O primeiro: é verdade que a religião poder trazer para a política intolerância e dogmatismo, mas também é verdade que não apenas as convicções religiosas trazem esses males. Algumas ideologias seculares também geram problemas do mesmo tipo. O que devemos isolar da política, então, é a intolerância e o dogmatismo, seja qual for a sua fonte, para que possamos nos respeitar e debater, cultivando uma ética de respeito democrático. Meu segundo motivo para não insistir nessa separação completa entre política e religião é que a política diz respeito às grandes questões e aos valores fundamentais. Então, a política precisa estar aberta às convicções morais dos cidadãos, não importa a origem. Alguns cidadãos extraem convicções morais de sua fé, enquanto outros são inspirados por fontes não religiosas. Não acho que devamos discriminar as origens das convicções ou excluir uma delas. O que importa é o debate ser conduzido com respeito mútuo”.
Preciso dizer mais alguma coisa?


Mateus Emilio Mazzochi
18/07/2012 at 17:07Ótimo post, a palavra principal veio no final: respeito. Deus abençoe.
Guedes
29/07/2012 at 23:30A política não tem que se abrir á religião mas sim respeitar toda e qualquer ideologia, respeitando-a e considerando-a, mas não necessariamente impondo estas ideologias a todos com verdade absoluta, neste quesito deve ser neutra, laica, e como todos devem concordar, sem dogmatismo e intolerância, que são a essência da religião e podemos dizer até do ateísmo militante. Ou seja, precisamos de pessoas realmente inteligentes para nos governar e que não tenham "rabo preso" com ideologias de verdade absoluta como a religião ou o ateísmo militante. Extremos sempre são nocivos e ligados à ignorância.
luis
20/08/2012 at 08:34Dogmantismo é da essência da religião, como também é da essência do Estado. As leis são cogentes ao cidadão e os dogmas são cogentes ao fiel. Intolerância, por sua vez, não é da essência da religião. Se vc descumpre um dogma, por exemplo, cristão, basta se arrepender e se confessar se for católico, ou se arrepender e pedir perdão a Deus diretamente, se for protestante. Todas as religiões têm seus "caminhos de retorno". O Estado, ao contrário, pune impiedosamente descumprimento de suas normas, civil, administrativa e/ou criminalmente. Essa "onda" de colar na religião uma falsa imagem de intolerância, a ponto de proibi-la de participar da vida pública sobrepõe o governo ao seu povo, que invariavelmente tem alguma crença, representada por uma confissão religiosa. Desde que os meios para a participação na vida pública sejam os normais, utilizados por todos os demais segumentos da sociedade, a religião é muito bem vinda ao debate público, sob pena de intolerância para com os religiosos.
Danielle
26/08/2012 at 15:32Muito bom post. E acredito que por mais que se queira separar política de religião, isto seria impossível na realidade em que vivemos. A verdade é que crescemos influenciados pelo conceitos que nos rodeiam, por isso, achar um ser humano sem esta influência seria improvável. Todos possuímos paradigmas e eles são as lentes pelas quais enxergamos o mundo.