Diaconia e cuidado: testemunhos dos primeiros séculos do Cristianismo

Share

Achei interessente compartilhar com os leitores uma síntese elaborada por mim baseada num  texto de Rodolfo Gaede Neto, sobre o testemunho dos cristãos nos primeiros séculos por meio do trabalho social.

***

Uma análise histórica do cristianismo do primeiro século demonstra o modo como os cristãos se importavam com o cuidado para com o próximo. Várias ações evidenciam o modo como os discípulos exerciam a diaconia e prestavam assistência aos mais necessitados e carentes. Nesse sentido, pode-se citar o ágape, uma espécie de refeição comunitária entre os cristãos, que além da celebração da Ceia do Senhor tinha como objetivo também saciar a fome das pessoas. Segundo os historiadores, o ágape era realizado diariamente e os alimentos eram trazidos pela própria comunidade para que pudessem partilhar com os demais e com isso suprir suas necessidades. Posteriormente, como registra Philippi (p. 624), houve a separação entre o ágape e a Ceia do Senhor, causando prejuízo para as duas instituições: “o ágape sem a eucaristia perdeu a sua dimensão mística (sacramental) e a eucaristia sem o ágape perdeu a dimensão social”.

Além disso, o socorro em situações de epidemias era uma prática comum entre os cristãos primitivos. Enquanto os pagãos fugiam das pessoas infectadas pelas pestes que avassalavam cidades, os cristãos ficavam e auxiliavam os doentes; tanto assim que muitos acabam morrendo em virtude de tais cuidados. No século 3, por exemplo, quando a peste invadiu a Etiópia, o pânico tomou conta de toda a região do Norte da África, fazendo como que muitas pessoas fugissem da localidade, deixando inclusive familiares infectados ou então colocando as crianças para fora de casa. Nesse cenário, porém, os cristãos eram convocados a ajudar não somente aos cristãos, mas também aos seus perseguidores.

Ainda, é digno de menção a hospitalidade dos seguidores de Cristo, os quais utilizavam seus lares para recepção e convívio social, e também as caixas comunitárias sistema pelo qual os próprios bens eram partilhados com as pessoas carentes. Exemplo desta prática encontra-se em At 2.42 em que os apóstolos perseveravam na comunhão e no partir do pão. Porém, vale destacar que, diferentemente dos essênios em Qumram, cuja partilha era obrigatória, a divisão de bens pelos cristãos era feita voluntariamente, sem qualquer tipo de imposição. Com efeito, o ajuntamento desses bens/dinheiro era feita na chamada caixa comunitária, e servia para socorrer os pobres, socorrer órfãos, escravos ou ainda os náufragos, enfim, todas as pessoas vulneráveis da sociedade.

Igualmente, as comunidades cristãs dos primeiros tempos se ajudavam mutuamente através de coletas. Um exemplo disso é a campanha realizada pelo apóstolo Paulo entre as comunidades gentílico-cristãs da Macedônia para socorrer a comunidade de Jerusalém, de origem judaica, empobrecida, sob o governo do imperador romano Cláudio, nos anos 41-54. Ainda, os cristãos realizavam o sepultamento daqueles que haviam morrido na pobreza ou no abandono, tanto dos cristãos quanto dos não-cristãos, e também promoviam o batismo das pessoas que aceitavam a Cristo. Naquela época a preparação para o batismo era revestida de grande importância, na medida em que os candidatos recebiam instruções sobre a fé cristã e também sobre as normas éticas e morais. Por isso, como registra Kalmbach, apesar de ser um rito destinado a indivíduos, tem uma dimensão claramente comunitária, pois ele incorpora a pessoa à igreja, ao Corpo de Cristo, e a coloca no seguimento a Jesus Cristo (p. 11).

Assim, como se nota, os cristãos do primeiro século tinham uma intensa atuação comunitária em prol da sociedade, e por isso mesmo chamavam a atenção dos descrentes em virtude do modo diferenciado como viam o próximo, realizavam a ajuda mútua, a partilha dos bens e o socorro aos marginalizados. Todos esses fatores corroboravam para o testemunho vigoroso dos cristãos no mundo, pela demonstração dos sinais visíveis da presença do reino de Deus na terra, causando impacto entre as demais pessoas e lançando as sementes da transformação.

Comentário:

Portanto, tudo isso leva-nos a refletir sobre a diaconia e o cuidado da igreja no tempo atual. Com efeito, embora seja certo que muitas igrejas ainda mantenham atividades sociais para ajuda aos mais carentes, até mesmo com a criação de sociedades beneficentes específicas, é preciso realçar que também existe uma grande parte da comunidade cristã que não dá a devida atenção a tais atividades. De certo modo, essa falta de envolvimento com o social decorre de uma herança histórica baseada em uma leitura equivocada da reforma protestante. Isso porque, no anseio de acabar com a venda de indulgências e de afastar de uma vez por todas o ensino de que as “obras dão direito ao céu”, uma boa parcela dos cristãos, exatamente por temer uma volta à prática da igreja romana, acabou por incorrer no erro inverso de se abster por completo de qualquer tipo de obra de caridade.

É claro que, como se disse, tudo não passa de uma leitura equivocada do objetivo da reforma protestante, a qual nunca teve a intenção de acabar com as obras de caridade e muito menos com a diaconia. Muito ao revés disso, sempre a incentivou, não como condição para a salvação, mas sim como uma prova na vida de quem já está salvo. Como escreveu Thiago: “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma; Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.” Tg 2.17-18.

 Por Valmir Nascimento

 

1 Comentário

  1. Paz e graça pastor, lendo ISamuel 2:25 sobre a repreensão de Eli para com seus filhos, percebi divêrgencias em algumas versões. ” pecando o homem contra o proximo, os juízes o julgarão…”(ECA)
    outra versão
    “pecando o homem o homem o próximo, Deus lhe será o árbritro…”

    Procurei outras versões e também ha divergências…gostaria de saber por que as diferenças de traduções são distantes e qual seria a correta.
    Por favor pastor comente também a parte “b”
    obrigado!

Leave a Comment

Subscribe without commenting