Somos animais morais?

Em síntese, Schwartsman argumenta que a faculdade moral do homem é um instinto. A base da ética do ser humano, portanto, são os impulsos nervosos.
Para além da riqueza de dados e novas perspectivas, “Moral Minds” oferece farta munição para destruirmos algumas “idées reçues” (idéias recebidas) renitentes. Uma falsa crença com a qual sempre me vejo às voltas quando incorro em textos ateus é a de que a religião é a fonte do comportamento moral das pessoas. Besteira. Como Hauser mostra de forma muito competente, a moralidade é tributária de um instinto que se consolidou no homem muitos milênios antes do primeiro padre celebrar a primeira missa. O que a religião fez, além da tentativa de usurpar para si a ética, foi despi-la de seus parâmetros variáveis e congelá-la no tempo, proclamando-a una e eterna. A menos que imaginemos um Deus racista, que faça questão de condenar todos os fores, de Papua-Nova Guiné, (canibais) e todos os faraós ptolomaicos (incestuosos), entre muitos outros povos e grupos que violam comandos bíblicos, temos de concluir que a moral é assunto complicado demais para ficar apenas nas mãos de religiosos.
Hélio Schwartsman é uma espécie de André Petry da Folha. Ele não gosta de religião, muito menos de religiosos. Portanto, suas declarações têm como pano de fundo a ideologia anti-teísta. Para ele Deus não existe e a religião está no mesmo patamar que a para-normalidade, as drogas e o sexo: diversão legítima para os apreciadores.
A idéia de que a moral é somente um instinto já havia sido albergada anteriormente por Friedrich Nietzsche:
“Em toda a parte onde encontramos uma moral encontramos uma avaliação e uma classificação hierárquica dos instintos e dos actos humanos. Essas classificações e essas avaliações são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: é aquilo que aproveita ao rebanho, aquilo que lhe é útil em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro -, que serve também de medida suprema do valor de qualquer indivíduo. A moral ensina a este a ser função do rebanho, a só atribuir valor em função deste rebanho. Variando muito as condições de conservação de uma comunidade para outra, daí resultam morais muito diferentes; e, se considerarmos todas as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, os Estados e as sociedades são ainda chamados a sofrer, pode-se profetizar que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto gregário no indivíduo.” (Friedrich Nietzsche, in ‘A Gaia Ciência’)
Sem querer alongar muito nesse tema, mas o fato é que em poucos parágrafos C. S. Lewis jogou em terra essa genial idéia de que a moralidade é instintiva. Nas obras “Abolição do homem” e “Cristianismo puro e simples” Lewis desenvolve com maestria o pensamento segundo o qual existe uma Lei Moral absoluta dentro de cada ser humano.
“Certas pessoas, por exemplo, me escreveram perguntando: “Isso que você chama de Lei Moral não é simplesmente o nosso instinto gregário? Será que ele não desenvolveu como todos os nossos outros instintos? Não vou negar que possuímos esse instinto, mas não é a ele que me refiro quando falo em Lei Moral. Todos nós sabemos o que é ser movido pelo instinto – pelo amor materno, pelo instinto sexual ou o instinto da alimentação: sentimos o forte desejo ou impulso de agir de determinada maneira. E é claro que, às vezes sentimos o desejo de intenso de ajudar outra pessoa. Isso se deve, sem dúvida, ao instinto gregário. No entanto, sentir o desejo intenso de ajudar é bem diferente de sentir a obrigação imperiosa de ajudar, que o queiramos, quer não. Suponhamos que você ouça o grito de socorro de um homem em perigo. Provavelmente você sentirá dois desejos: o de prestar socorro (que se deve ao instinto gregário) e o de fugir do perigo (que se deve ao instinto de auto-preservação). Mas você encontrará dentro de si, além desses dois impulsos, um terceiro elemento, que lhe mandará seguir o impulso da ajuda e suprimir o impulso da fuga. Esse elemento, que põe na balança os dois instintos e decide qual deles deve ser seguido, não pode ser nenhum dos dois. Você poderia pensar também que a partitura musical, que lhe manda, num determinado momento, tocar tal nota no piano e não outra, é equivalente a uma das notas do teclado. A Lei Moral nos informa da melodia a ser tocada; nossos instintos são meras teclas”.
‘Há outra maneira de perceber que a Lei Moral não é simplesmente um dos nossos instintos. Se existe um conflito entre os dois, e na mente dessa criatura, não há mais nada além desses instintos, é óbvio que o instinto mais forte deve prevalecer. Porém, nos momentos em que enxergamos a Lei Moral com maior clareza ela geralmente nos aconselha a escolher o impulso mais fraco. Provavelmente, seu desejo de ficar a salvo é maior do que o desejo de ajudar o homem que se afoga, mas a Lei Moral lhe manda ajudá-lo, apesar dos pesares. E, em geral, ela nos manda tomar o impulso correto e tentar torná-lo mais forte do que originalmente era – não é verdade? Ou seja, sentimos que temos o dever de estimular nosso instinto gregário, por exemplo, despertando a imaginação e estimulando a piedade, entre outras coisas, para termos força para agir corretamente na hora certa. E, evidente, porém, que, no momento em que decidimos tornar mais forte um instinto, nossa ação não é instintiva. Aquilo que lhe diz: “Seu instinto está adormecido está adormecido, desperte-o”, não pode ser o próprio instinto. O que lhe manda tocar tal nota no piano não pode ser a própria nota”.
“Há ainda uma terceira maneira de ver a Lei Moral. Se ela fosse um de nossos instintos, seríamos capazes de identificar dentro de nós um impulso que sempre pudéssemos chamar de “bom” segundo a regra da boa conduta. Mas isso não acontece. Não existe nenhum impulso que às vezes a Lei Moral não nos aconselhe a inibir, nem outro que ela não nos encoraje a praticar de vez em quando. É um erro achar que alguns de nossos impulsos, como o amor materno e o patriotismo, são bons, e outros, como o instinto sexual e a agressividade, são maus. Tudo o que queremos dizer é que existem mais situações em que o instinto de luta e o desejo sexual devem ser contidos do que situações em que devemos conter o amor materno e o patriotismo. No entanto, em certas ocasiões, é dever do homem casado encorajar seu impulso sexual, e do soldado fomentar sua agressividade. Existem também oportunidades em que a mãe deve refrear o amor pelo filho, ou o homem deve conter o amor por seu país, para que não cometam injustiças contra outras crianças ou outros países. A rigor, não existem impulsos bons ou impulso maus. Voltemos ao piano. Não há nele dois tipos de notas, as “certas” e as “erradas”. Cada uma das notas é certa para uma determinada ocasião e errada para outra. A Lei Moral não é um instinto particular ou um conjunto de instintos; é como um maestro que, regendo os instintos, define a melodia que chamamos de bondade ou de boa conduta”. (Cristianismo Puro e simples).
Apenas como adendo, é importante mencionar que a aquilo que Lewis chama de Lei Moral e a luta entre os instintos já havia sido mencionado por Paulo:
“Eu não entendo o que faço, pois não faço o que gostaria de fazer. Pelo contrário, faço justamente aquilo que odeio. Se faço o que não quero, isso prova que reconheço que a lei diz o que é certo. E isso mostra que, de fato, já não sou eu quem faz isso, mas o pecado que vive em mim é que faz. Pois eu sei que aquilo que é bom não vive em mim, isto é, na minha natureza humana. Porque, mesmo tendo dentro de mim a vontade de fazer o bem, eu não consigo fazê-lo. Pois não faço o bem que quero, mas justamente o mal que não quero fazer é que eu faço. Mas, se faço o que não quero, já não sou eu quem faz isso, mas o pecado que vive em mim é que faz. Assim eu sei que o que acontece comigo é isto: Quando quero fazer o que é bom, só consigo fazer o que é mau. Dentro de mim eu sei que gosto da lei de Deus. Mas vejo uma lei diferente agindo naquilo que faço, uma lei que luta contra aquela que a minha mente aprova. Ela me torna prisioneiro da lei do pecado que age no meu corpo. Como sou infeliz! Quem me livrará deste corpo que me leva para a morte? Que Deus seja louvado, pois ele fará isso por meio do nosso Senhor Jesus Cristo! Portanto, esta é a minha situação: No meu pensamento eu sirvo à lei de Deus, mas na prática sirvo à lei do pecado.” Romanos 7:15-25
Portanto, tenho que concluir, a moral é assunto complicado demais para ficar apenas nas mãos dos anti-teístas.


Victor Leonardo
17/01/2008 at 14:18Excelente artigo irmão Valmir, realmente a filosofia marxista e anti-teísta porposta por Satre e outros domina o cenário da mídia nacional. É necessário nos manifestarmos contra isso. Abraços e Paz do Senhor!!!!!
Editor do Blog
18/01/2008 at 00:36Victor, Exatamente, uma quantidade boa de "pensadores" da mídia atual está por aí, denegrindo a Palavra de Deus e tentando jogar o pensamento cristão ao chão. Precisamos nos opor com sabedoria e fundamentos os argumentos deles. NA paz Valmir
Faculdade de Teologia
16/07/2008 at 19:38Interessante o artigo! Muito bom!
Marcos
14/10/2008 at 04:43A moralidade é produto dos instintos, não um deles, a vida em sociedade regida primeiramente por instintos + pensameno resultou em um codigo moral que leva as pessoas a escolher entre os instintos, você acha que foi deus que deu essa capacidade de escolha, o livro diz que essa capacidade se desenvolveu junto com a vida.
Alan Maia Ferreira
25/02/2011 at 13:46A pergunta que Marcos faz é interessante mas ela se iguala a leis que Deus deixou para controlar em ação o planeta terra. Veja bem que no livro, segundo o argumento de Lewis segundo a sua colocação de "capacidade" se desenvolveu junto a vida por conta de ser na própria vida que esse bem se desenvolvesse, e não em outro local, não seria uma coisa que Deus teria que colocar essa lei no coraçaão de cada pessoa todavia que fosse fazer algo, ou de errado ou correto. Pois sabemos que Deus criou as leis e as estabeleceu para que o mundo tivesse um controle, como por exemplo a lei da gravidade, Deus não cria a gravidade todo segundo, Ele ja havia criado para que a própria lei tivesse alto sustentação e poder para reagir assim como Deus o estabeleceu. A lei moral nasce no homem desde a criação, pe lei de Deus, mesmo ele sabendo que acabou de enfrentar pela primeira a reação dos instintos e sabe que tem que decidir.
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Guedes
26/02/2011 at 21:17Muito estranho este debate. Todos aqui se esqueceram que além de instinto temos inteligência e poder de decisão e escolhemos sim por nosso próprio intelecto o que é melhor para nós e para o próximo. Está provado que todos nós sentimos um bem estar após sermos úteis, também deve ser algo ligado ao instinto, mas a decisão de ser altruista ou não depende exclusivamente de nossa vontade e não de determinações religiosas.